VITA CONTEMPLATIVA
Sem aqueles “instintos limitativos”, o agir se deteriora numa reação e abreação inquieta e hiperativa. A atividade pura nada mais faz do que prolongar o que já existe. Uma virada real para o outro pressupõe a negatividade da interrupção. Só por meio da negatividade do parar interiormente, o sujeito de ação pode dimensionar todo o espaço da contingência que escapa a uma mera atividade. É bem verdade que o hesitar não representa uma ação positiva, mas é indispensável para que a ação não decaia para o nível do trabalho. Hoje, vivemos num mundo muito pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. No aforismo “A principal carência do homem ativo”, escreve Nietzsche: “Aos ativos falta usualmente a atividade superior [...] e nesse sentido eles são preguiçosos. [...] Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica” [25] . Há diversos tipos de atividade. A atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas. Apesar de todo o seu desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar
No empuxo da aceleração geral e da hiperatividade desaprendemos também a ira. A ira tem uma temporalidade bem específica, que não se coaduna com a aceleração geral e com a hiperatividade. Essa não admite nenhuma folga temporal. O futuro se encurta numa atualidade prolongada. Falta-lhe qualquer negatividade, que permitiria olhar para o outro. A ira, ao contrário, coloca definitivamente em questão o presente. Ela pressupõe uma pausa interruptora no presente. É nisso que ela se distingue da irritação. A dispersão geral que marca a sociedade de hoje não permite que surja a ênfase e a energia da ira. A ira é uma capacidade que está em condições de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo estado. Hoje, cada vez mais ela cede lugar à irritação ou ao enervar-se, que não podem produzir nenhuma mudança decisiva. Assim, irritamo-nos também por causa do inevitável. A irritação está para a ira como o medo está para a angústia. Contrariamente ao medo que se refere a um objeto determinado, a angústia está referida ao ser como tal. Ela atinge e abala toda a existência. Também a ira não se refere a um único estado de coisas. Ela nega o todo. Nisso consiste sua energia da negatividade. Ela representa um estado de exceção. A crescente positivação do mundo torna-o pobre em estados de exceção. Agamben passa ao largo dessa positividade crescente.

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