Fran Mestranda

Fran Mestranda
Assim experimentado, o amor é um desafio constante; não é um lugar de repouso, mas é mover-se, crescer, trabalhar juntamente; haja harmonia ou conflito, alegria ou tristeza. Eric Fromm em “A arte de amar”

Epistemologias do Sul e outros textos para artigo de IA




Epistemologias do Sul

 P. 10-  De facto, sob o pretexto da ‘missão colonizadora’, o projecto da colonização procurou homogeneizar o mundo, obliterando as diferenças culturais (Meneses,

2007). Com isso, desperdiçou-se muita experiência social e reduziu-se a

diversidade epistemológica, cultural e política do mundo




P. 11- 12- Simultaneamente, porém, as condições do tempo presente tornam as diferenças culturais e políticas mais profundas e insidiosas e mais difícil a luta contra elas. Por um lado, o capitalismo global, mais que um modo de produção, é hoje um regime cultural e civilizacional, portanto, estende cada vez mais os seus tentáculos a domínios que dificilmente se concebem como capitalistas, da família à religião, da gestão do tempo à capacidade de concentração, da concepção de tempo livre às relações com os que nos estão mais próximos, da avaliação do mérito científico à avaliação moral dos comportamentos que nos afectam. Lutar contra uma dominação cada vez mais polifacetada significa preversamente lutar contra a indefinição entre quem domina e quem é dominado, e, muitas vezes, lutar contra nós próprios. Por outro lado, a resiliência do capitalismo revelou-se na reiterada operacionalidade de uma das suas armas que parecia ter sido historicamente neutralizada: o colonialismo. De facto, o fim do colonialismo político, enquanto forma de dominação que envolve a negação da independência política de povos e/ou nações subjugados, não significou o fim das relações sociais extremamente desiguais que ele tinha gerado, (tanto relações entre Estados como relações entre classes e grupos sociais no interior do mesmo Estado). O colonialismo continuou sobre a forma de colonialidade de poder e de saber, para usar a expressão de Anibal Quijano neste livro. 



P. 12-  A quinta ideia é que as alternativas à epistemologia dominante partem, em geral, do princípio que o mundo é epistemologicamente diverso e que essa diversidade, longe de ser algo negativo, representa um enorme enriquecimento das capacidades humanas para conferir inteligibilidade e intencionalidade às experiências sociais. A pluralidade epistemológica do mundo e, com ela, o reconhecimento de conhecimentos rivais dotados de critérios diferentes de validade tornam visíveis e crediveis espectros muito mais amplos de acções e de agentes sociais. Tal pluralidade não implica o relativismo epistemológico ou cultural mas certamente obriga a análises e avaliações mais complexas dos diferentes tipos de interpretação e de intervenção no mundo produzidos pelos diferentes tipos de conhecimento. O reconhecimento da diversidade epistemológica tem hoje lugar, tanto no interior da ciência (a pluralidade interna da ciência), como na relação entre ciência e outros conhecimentos (a pluralidade externa da ciência).



Designamos a diversidade epistemológica do mundo por epistemologias do Sul. O Sul é aqui concebido metaforicamente como um campo de desafios epistémicos, que procuram reparar os danos e impactos historicamente causados pelo capitalismo na sua relação colonial com o mundo.

[...] As epistemologias do Sul são o conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam essa supressão, valorizam os saberes que resistiram com êxito e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos. A esse diálogo entre saberes chamamos ecologias de saberes (Santos, 2006).



P. 13:  Esta concepção do Sul sobrepõe-se em parte com o Sul geográfico, o conjunto de países e regiões do mundo que foram submetidos ao colonialismo europeu e que, com excepção da Austrália e da Nova Zelândia, não atingiram níveis de desenvolvimento económico semelhantes ao do Norte global (Europa e América do Norte). A sobreposição não é total porque, por um lado, no interior do Norte geográfico classes e grupos sociais muito vastos (trabalhadores, mulheres, indígenas, afro-descendentes) foram sujeitos à dominação capitalista e colonial e, por outro lado, porque no interior do Sul geográfico houve sempre as ‘pequenas Europas’, pequenas elites locais que beneficiaram da dominação capitalista e colonial e que depois das independências a exerceram e continuam a exercer, por suas próprias mãos, contra as classes e grupos sociais subordinados. A ideia central é, como já referimos, que o colonialismo, para além de todas as dominações por que é conhecido, foi também uma dominação epistemológica, uma relação extremamente desigual de saber-poder que conduziu à supressão de muitas formas de saber próprias dos povos e/ou nações colonizados.


Capítulo 1 Para Além do Pensamento Abissal: Das Linhas Globais a Uma Ecologia de Saberes* Boaventura de Sousa Santos



P. 24- A característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha






P. 23- O pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal.1 Consiste num sistema de distinções visíveis e invisíveis, sendo que as invisíveis fundamentam as visíveis. As distinções invisíveis são estabelecidas através de linhas radicais que dividem a realidade social em dois universos distintos: o universo ‘deste lado da linha’ e o universo ‘do outro lado da linha’. A divisão é tal que ‘o outro lado da linha’ desaparece enquanto realidade, torna‑se inexistente, e é mesmo produzido como inexistente.

P. 25- A sua visibilidade assenta na invisibilidade de formas de conhecimento que não encaixam em nenhuma destas formas de conhecer. Refiro-me aos conhecimentos populares, leigos, plebeus, camponeses, ou indígenas do outro lado da linha. Eles desaparecem como conhecimentos relevantes ou comensuráveis por se encontrarem para além do universo do verdadeiro e do falso


P. 25-  Do outro lado da linha, não há conhecimento real; existem crenças, opiniões, magia, idolatria, entendimentos intuitivos ou subjectivos, que, na melhor das hipóteses, podem tornar‑se objectos ou matéria‑prima para a inquirição científica

P. 26- O outro lado da linha compreende uma vasta gama de experiências desperdiçadas, tornadas invisíveis, tal como os seus autores, e sem uma localização territorial fixa.





P. 29- A mesma cartografia abissal é constitutiva do conhecimento moderno. Mais uma vez, a zona colonial é, par excellence, o universo das crenças e dos comportamentos incompreensíveis que de forma alguma podem considerar-se conhecimento, estando, por isso, para além do verdadeiro e do falso. O outro lado da linha alberga apenas práticas incompreensíveis, mágicas ou idolátricas. A completa estranheza de tais práticas conduziu à própria negação da natureza humana dos seus agentes. Com base nas suas refinadas concepções de humanidade e de dignidade humana, os humanistas dos séculos XV e XVI chegaram à conclusão de que os selvagens eram sub-humanos. A questão era: os índios têm alma? Quando o Papa Paulo III respondeu afirmativamente na bula Sublimis Deus, de 1537, fê-lo concebendo a alma dos povos selvagens como um receptáculo vazio, uma anima nullius, muito semelhante à terra nullius, 13 o conceito de vazio jurídico que justificou a invasão e ocupação dos territórios indígenas. Com base nestas concepções abissais de epistemologia e legalidade, a universalidade da tensão entre a regulação e a emancipação, aplicada deste lado da linha, não entra em contradição com a tensão entre apropriação e violência aplicada do outro lado da linha.


P. 29- A apropriação e a violência tomam diferentes formas na linha abissal jurídica e na linha abissal epistemológica. Mas, em geral, a apropriação envolve incorporação, cooptação e assimilação, enquanto a violência implica destruição física, material, cultural e humana. Na prática, é profunda a interligação entre a apropriação e a violência.

P. 30- 7 A humanidade moderna não se concebe sem uma sub-humanidade moderna
P. 31- A negação de uma parte da humanidade é sacrificial, na medida em que constitui a condição para a outra parte da humanidade se afirmar enquanto universal.1
P. 32- Para ser bem sucedida, esta luta exige um novo pensamento, um pensamento pós-abissal








Aspectos da Epistemologia do Sul:

a minha proposta é que este movimento é composto de um movimento principal e de um contra-movimento subalterno. Denomino o movimento principal de regresso do colonial e do colonizador, e o contra‑movimento, de cosmopolitismo subalterno.

Movimento principal:

P. 33- Em primeiro lugar, o regresso do colonial e o regresso do colonizador. Aqui, o colonial é uma metáfora daqueles que entendem as suas experiências de vida como ocorrendo do outro lado da linha e se rebelam contra isso. O regresso do colonial é a resposta abissal ao que é percebido como uma intromissão ameaçadora do colonial nas sociedades metropolitanas. Este regresso assume três formas principais: o terrorista, o imigrante indocumentado e o refugiado.


P. 36- . Direitos humanos são desta forma violados para poderem ser defendidos, a democracia é destruída para garantir a sua salvaguarda, a vida é eliminada em nome da sua preservação. Linhas abissais são traçadas tanto no sentido literal como metafórico. No sentido literal, estas são as linhas que definem as fronteiras como vedações32 e campos de morte, dividindo as cidades em zonas civilizadas (gated communities, 33 em número sempre crescente) e zonas selvagens, e prisões entre locais de detenção legal e locais de destruição brutal e sem lei da vida

P. 39-  De facto, é minha convicção que podemos estar a entrar num período em que as sociedades são politicamente democráticas e socialmente fascistas



LER: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/59884/2/Colonialidade%20algor%C3%ADtmica%20e%20epistemologia%20de%20dados%20desafios%20%C3%A0%20media%C3%A7%C3%A3o%20social%20da%20informa%C3%A7%C3%A3o.pdf


103-  Tratam-se de fenômenos sócio-técnicos que se organizam como universos semióticos interconectados e que, ao se estenderem aos ambientes digitais, reiteram e consolidam o altericídio e a rarefação de epistemologias, de diversidades e agendas sociais. A noção de colonialidade se distingue de colonialismo, podendo ser considerada como um padrão de poder baseado na violência colonial historicamente engendrada. Como dispositivo de poder, a colonialidade tem sido reinventada em novos contextos e situações

P. 106- Sobre dataficação: Além disso, permite o acompanhamento em tempo real e a análise preditiva de sujeitos e contextos. Após a coleta de dados dos usuários da Internet os procedimentos de dataficação permitem a interpretação e o seu uso pelos próprios produtores de modo que eles possam agir no contexto com base na predição just-in-time

P. 107- 3 Bios virtual e colonialidade algorítmica A proximidade, favorecida pela extensão da vida aos ambientes digitais, tem sido alvo de inúmeros apontamentos,críticas e reflexões na contemporaneidade. Os estudiosos do campo assinalam que estaríamos vivendo sob a égide de um novo processo de colonialidade, agora extensivo aos ambientes digitais, com a potencialidade para intervir em nossas relações, nas deliberações políticas e na composição de novas formas de gerir o comum.




LIVRO-  FAUSTINO E LIPPOLD




A sofisticação da exploração e da opressão ofereceram novas possibilidades de atuação política contra-hegemônicas, mas cada vez mais os movimentos sociais compreendem a importância da tecnopolítica e da descolonização da tecnologia


Inteligência artificial, data centers e colonialismo digital: Impactos socioambientais e geopolíticos a partir do Sul Global

Furtado e Cunha 




P. 2-  Os produtos da OpenAI, bem como os de suas concorrentes, são sistemas algorítmicos, que entregam respostas (outputs) para comandos textuais específicos (prompts) a partir do processamento de uma enorme base de dados (Evangelista; Furtado, 2024). Mas o que os singulariza não é apenas o seu poder computacional: é a promessa de que as IAs seriam supostamente infalíveis e capazes de solucionar as mais complexas problemáticas, ultrapassando a capacidade do cérebro humano (Crawford, 2021).


Destarte, tecnologias de informação e comunicação (TICs) detidas pelas big techs estadunidenses provocam amplos impactos geopolíticos e socioambientais. Para os países do Sul global onde estas corporações atuam, o que se processa é um aprofundamento da dependência tecnológica e da desigualdade digital – mecanismos estes que atuam como instrumentos de controle político, visto que campanhas políticas, instituições públicas e decisões governamentais de países dependentes são progressivamente mediadas pelas TICs hegemônicas (Ávila Pinto, 2018).


NEM INTELIGENTE, NEM ARTIFICIAL


P. 3- As ferramentas de IA contemporâneas prometem apresentar soluções para problemáticas complexas, incluindo a crise climática. Observar, no entanto, a inteligência artificial desde um ponto de vista paralelo aos discursos hegemônicos nos permite desvelar os vieses tecnopolíticos desta retórica. Por isso, aqui adotamos a perspectiva da pesquisadora australiana Kate Crawford (2021), que defende que a inteligência artificial não é nem artificial, nem inteligente. Em primeiro lugar, a inteligência artificial não é inteligente porque sua operação é baseada na interpretação computacional de padrões em larga escala; ou seja, a IA somente recombina informações previamente existentes para oferecer seus outputs. Logo, não é inteligente porque não é autônoma ou racionalmente capaz de interpretar informações, já que opera identificando padrões de dados.

Em segundo lugar, tais sistemas não são artificiais porque dependem de processos materiais muito específicos.


 


Para além do trabalho humano envolvido na escrita de algoritmos, o funcionamento e o treinamento de IAs também dependem dos dados armazenados e processados em data centers, gigantescas infraestruturas que demandam alto consumo de energia e água.


P. 4- Para Paz Peña Ochoa (2023), o tecnocapitalismo explora e mercantiliza a criatividade tecnológica, direcionando a produção de aparatos técnicos de acordo com os interesses das empresas que os financiam. Assim, o objetivo não é, evidentemente, responder dilemas sociais através das tecnologias, mas sim produzir aparatos e dispositivos que aprofundam o poder das maiores corporações de tecnologia do mundo, as big techs. Na atual fase do sistema, estamos diante de “uma cultura monotecnológa, que estimula apenas uma forma de imaginar e desenvolver tecnologias, que respondem aos interesses econômicos muito particulares do tecnocapitalismo” (Ochoa, 2023, p. 16)3 .


P.5- Quando se discute IA, existe uma crença predominante de que, quanto maior, melhor; em outras palavras, a ideia é utilizar cada vez mais poder computacional para gerar resultados mais eficientes e mais econômicos. A questão, no entanto, é que o poder de computação não é imaterial e requer energia para isto. Portanto, as retóricas das big techs que insuflam a necessidade do desenvolvimento acelerado da IA – inclusive para solucionar a crise climática – invisibilizam o fato de que tal indústria produz efeitos materiais e ambientais significativos. Até 2040, a indústria tech, hoje comparável à da aviação em termos de emissão de GEE, deve se tornar responsável por 14% do total de emissão de gases de efeito estufa (Crawford, 2021;



P. 18- De acordo com a definição do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil, data centers são infraestruturas que garantem a segurança, a velocidade e a capacidade de atividades online através do armazenamento, processamento e distribuição de dados (Brasil, 2023). Data centers, parte da presença física da Internet, são frequentemente mantidos distantes da atenção pública por suas detentoras, em termos de acesso, localização e modos de funcionamento (Holt e Vonderau, 2015). Estes, no entanto, não são os únicos aspectos invisibilizados. O discurso endossado pelos líderes das big techs, ao hipervisibilizar o progresso que (teoricamente) será alcançado a partir do uso de suas tecnologias e infraestruturas digitais, oculta, por exemplo, as mudanças territoriais, econômicas e ambientais causadas pela instalação de um data center. 



O desconhecimento sobre o uso anterior do espaço agora ocupado por data centers normaliza, material e imaterialmente, a noção de que a natureza é um mero receptáculo destinado a abrigar as estruturas e as máquinas da economia digital (Hogan, 2015).


P. 8-  Segundo os solucionistas tecnológicos, bastaria utilizarmos um aplicativo ou um serviço computacional para que tudo se torne mais eficiente, para que todo e qualquer problema seja resolvido (Evangelista; Furtado, 2024). Quando recusamos, no entanto, tais discursos, tornamos mais visível uma realidade que aponta justamente para a insustentabilidade das retóricas solucionistas – sobretudo no que se refere à soberania dos países do Sul global.


A AMEAÇA À SOBERANIA 

P. 8- O conceito de soberania aqui utilizado diz respeito ao poder político, jurídico e social que expressa a capacidade de um Estado-nação em organizar-se autonomamente e impor, dentro de seu território físico, suas decisões (Dallari, 1998). Depende também, sobretudo desde um ponto de vista tecnológico, da compreensão acerca da intervenção estrangeira; e das formas como potências privadas e estatais controlam e concentram ao seu redor os avanços tecnológicos contemporâneos e os usos decorrentes dos mesmos (Ceballos et al., 2020).

   No entanto, para que a soberania seja praticada de fato, um país não pode ter suas vulnerabilidades – políticas, econômicas, tecnológicas, militares, ideológicas, etc. – exploradas em prol dos interesses de outro país (Guimarães, 2020).

P. 9-  O  colonialismo digital é o exercício de dominação, controle e propriedade de softwares, hardwares e meios de conexão, de modo que, a partir do momento em que são as empresas privadas que estabelecem quais tipos de dispositivos e infraestruturas devem  ou  não  ser  adotados  em  contextos nacionais,  tais  entidades  adquirem  vasto poder  político,  econômico  e  social  (Guerra  González  et  al.,  2022).  

P. 9-  Mas  os  impactos  do  colonialismo  digital  não  são  somente  geopolíticos  e tecnológicos:  são  também  ambientais,  o  que  nos  permite  ressaltar  novamente  a questão  do  território.  É  preciso  resistir  à  perspectiva  capitalista  que  entende  os territórios como receptáculo de infraestruturas e reserva de recursos naturais; e que reproduz  a  violência  histórica  contra  as  populações  do  Sul  global,  sobretudo  as originárias.  Assim  sendo,  a  disputa  da  soberania  digital  deve  envolver  também  a questão da determinação popular sobre seus próprios territórios. Por isto defendemos conectar  a  ideia  de  soberania  digital  à  noção  de  soberania  permanente  sobre  os recursos naturais (SPRN), conforme Souza (2022)




No  livre  mercado contemporâneo  das  tecnologias  digitais,  quanto  mais  um  governo  é  dependente  de infraestruturas-chave  que  não  tem  a  capacidade  de  controlar,  então  menos  livre  é  a administração  pública,  dado  o  caráter  de  progressiva  monopolização  do  mercado (Ávila Pinto, 2018).Progressivamente  poderosas,  as big  techsestadunidenses  adquiriram  um domínio significativo já que instalam, controlam, impõem e organizam a infraestrutura digital.   Ao   incidir   sobre   a   logística,   a   segurança,   a   educação,   a   medicina,   o entretenimento, o sistema bancário e financeiro e a energia, entre outros setores, as big techsreorganizam o funcionamento de tais esferas ao redor de suas tecnologias, mercantilizando  a  vida  cotidiana  e  controlando  como  se  desenvolvem  as  relações humanas (D’Andréa, 2023)

 P. 11- Desta forma, a dependência tecnológica e científica deve ser entendida como uma derivação da dependência cultural e econômica, que impõe quais devem  ser  as  formas  de  consumo  e  de  produção  nos  países  dominados,  sempre  de acordo  com  as  normas  estabelecidas  pelos  países  dominantes.  Logo,  é  fundamental rechaçar  o  mito  da  tecnologia  onipotente,  neutra,  universal  e  infalível,  capaz  de solucionar  toda  e  qualquer  problemática  (Varsavsky,  2013) –algo  que se torna  ainda mais relevante no contexto dos discursos solucionistas tecnológicos sobre a IA.


É preciso questionar também a questão da matriz energética brasileira como justificativa para tornar o país atrativo para investimentos. Ainda que o Brasil possua uma  matriz  mais  limpa  e  renovável,  isto  não  quer  dizer  que  não  existam  problemas hídricos nopaís –muito pelo contrário. Em meados de 2024, o Brasil registrou uma das piores secas de sua história; em Vinhedo, que se encontra na rota da expansão dos data centers, foi necessário adotar um esquema de racionamento de água (Sabino; Vieira, 2024). Isto sem considerar o fato de que ao menos 33 milhões de pessoas no Brasil não têm acesso à água potável (Peduzzi, 2024). Ora, como efetivar uma SPRN verdadeira quando   os   recursos   naturais   nacionais   são   utilizados   em   prol   de   corporações estrangeiras  e  outros Estados-nação  agravando,  consequentemente,  a  insegurança hídrica da população doméstica?


P. 12- Existem exemplos em países vizinhos que podem balizar o caminho brasileiro, sobretudo após os acontecimentos da seca de 2024 no país. No Uruguai, que enfrentou uma  das  piores  secas  de  sua  história  em  2023,  movimentos  ambientalistas  elevaram suas  vozes  contra  os  planos  da  Google  em  construir  um data  centerem  Canelones, município próximo a Montevidéu; o projeto prevê que a infraestrutura consumirá ao menos 7,6 milhões de litros de água por dia (Viana, 2023). Outro caso, ocorrido no Chile, também  apresenta  um  precedente  positivo:  em  fevereiro  de  2024,  um  tribunal ambientallocal  revogou  a  permissão  para  a  Google  construir  um data  centernos arredores  de  Santiago  (Data  Center  Dynamics,  2024a).  No  Brasil,  algo  semelhante ocorreu em Limeira, no interior de São Paulo. Parlamentares impediram o andamento de um projeto porque o mesmo não estava de acordo com a legislação brasileira no que  se  refere  à  venda  de  terras  rurais  para  multinacionais  (Yadav,  2024,  online).  No entanto,  posteriormente,  a  câmara  municipal  votou  a  favor  da  alteração  do  Plano Diretor da cidade de modo a permitir a construção de um data centerda Microsoft, que será instalado em um terreno de cerca de 2 milhões de metros quadrados (Data Center Dynamics, 2024


Além   destas   problemáticas   de   ordem   política   no   que   se   refere   ao   uso irresponsável  de  nossos  recursos  naturais,  um  aumento  na  demanda  de  energia elétrica  pode  acarretar  um  grande  estresse  no  fornecimento –como  os  apagões  de 2023 em São Paulo demonstraram.Considerando que as tendências apontam para um aumento  na  demanda  muito  maior  do  que  o  incremento  na  oferta,  não  haverá ferramenta   em   inteligência   artificial   possível   que   fisicamente   reduza   a   imensa disparidade  entre  o  que  se  consome  e  o  que  se  produz  em termos  energéticos.  Em suma,  o  que  ocorre  na  prática  é  um  movimento  de  empresas  localizadas  no  Norte global   orientado   a   transferir   suas   infraestruturas   poluentes   e   consumidoras   de recursos  naturais  e  energia  para  outro  país.  A  matriz  limpa  brasileira,  diante  do aumento de energia, não será suficiente para conter emissões gerais de GEE.Evidencia-se,  assim,  que  a  instalação  de data  centersno  Brasil,  que  deve  ser expandida  com  a  demanda  da  IA  nos  moldes  propostos  presentemente,  apresenta sérios riscos simultâneos no âmbito digital e dos recursos naturais do país. Apresenta riscos, portanto, à soberania brasileira.CONCLUSÕESNa interseção conflituosa entre o que infraestruturas prometem –sobretudo em  termos  de  modernidade,  desenvolvimento,  progresso  e  liberdade –e  o  que produzem,   encontramos   um   espaço   intermediário   a   partir   do   qual   analisar   as complexidades  da  realidade  e  os  processos  de  diversos  tipos –sociais,  ambientais, institucionais, materiais, não-humanos –(im)possibilitados por infraestruturas (Anand et  al.,  2018).  Foi  esta  a  posição  que  buscamos  ocupar  para  tensionar  as  camadas  de visibilidade e invisibilidade (Figueiredo, 2022) inscritas no cenário da expansão dos data centersno Brasil diante do aumento da demanda por serviços de inteligência artificial. Nosso  principal  intuito  foi  o  de  tornar  mais  visíveis  os  impactos  socioambientais  e geopolíticos já causados ao Brasil, bem como os impactos que podem –e, segundo as tendências, devem –ser causados nos próximos anos no país.


P. 13- A crítica ao colonialismo digital deve questionar quem controla as tecnologias e quais são seus interesses; que agendas geopolíticas são fomentadas e quais são perturbadas; e o que pode significar ou não a tecnologia  digital  para  o  humano  (Tello,  2023).  Ainda,  como  o  colonialismo  digital também  produz  nocivos  efeitos  ambientais,  o  aprofundamento  da  dependência tecnológica  no  contexto  da  IA  desarticula  não  só  a  soberania digital,  mas  também  a SPRN. Por isto é essencial recuperar a questão do território, mesmo porque, antes dos impactos  geopolíticos,  os  primeiros  danos  colaterais  do  colonialismo  digital  são aqueles sentidos a nível socioambiental. 






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