Epistemologias do Sul e outros textos para artigo de IA
Epistemologias do Sul
P. 10- De facto, sob o pretexto da ‘missão colonizadora’, o projecto da colonização procurou homogeneizar o mundo, obliterando as diferenças culturais (Meneses,
2007). Com isso, desperdiçou-se muita experiência social e reduziu-se a
diversidade epistemológica, cultural e política do mundo
P. 11- 12- Simultaneamente, porém, as condições do tempo presente tornam as diferenças culturais e políticas mais profundas e insidiosas e mais difícil a luta contra elas. Por um lado, o capitalismo global, mais que um modo de produção, é hoje um regime cultural e civilizacional, portanto, estende cada vez mais os seus tentáculos a domínios que dificilmente se concebem como capitalistas, da família à religião, da gestão do tempo à capacidade de concentração, da concepção de tempo livre às relações com os que nos estão mais próximos, da avaliação do mérito científico à avaliação moral dos comportamentos que nos afectam. Lutar contra uma dominação cada vez mais polifacetada significa preversamente lutar contra a indefinição entre quem domina e quem é dominado, e, muitas vezes, lutar contra nós próprios. Por outro lado, a resiliência do capitalismo revelou-se na reiterada operacionalidade de uma das suas armas que parecia ter sido historicamente neutralizada: o colonialismo. De facto, o fim do colonialismo político, enquanto forma de dominação que envolve a negação da independência política de povos e/ou nações subjugados, não significou o fim das relações sociais extremamente desiguais que ele tinha gerado, (tanto relações entre Estados como relações entre classes e grupos sociais no interior do mesmo Estado). O colonialismo continuou sobre a forma de colonialidade de poder e de saber, para usar a expressão de Anibal Quijano neste livro.
P. 12- A quinta ideia é que as alternativas à epistemologia dominante partem, em geral, do princípio que o mundo é epistemologicamente diverso e que essa diversidade, longe de ser algo negativo, representa um enorme enriquecimento das capacidades humanas para conferir inteligibilidade e intencionalidade às experiências sociais. A pluralidade epistemológica do mundo e, com ela, o reconhecimento de conhecimentos rivais dotados de critérios diferentes de validade tornam visíveis e crediveis espectros muito mais amplos de acções e de agentes sociais. Tal pluralidade não implica o relativismo epistemológico ou cultural mas certamente obriga a análises e avaliações mais complexas dos diferentes tipos de interpretação e de intervenção no mundo produzidos pelos diferentes tipos de conhecimento. O reconhecimento da diversidade epistemológica tem hoje lugar, tanto no interior da ciência (a pluralidade interna da ciência), como na relação entre ciência e outros conhecimentos (a pluralidade externa da ciência).
Designamos a diversidade epistemológica do mundo por epistemologias do Sul. O Sul é aqui concebido metaforicamente como um campo de desafios epistémicos, que procuram reparar os danos e impactos historicamente causados pelo capitalismo na sua relação colonial com o mundo.
[...] As epistemologias do Sul são o conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam essa supressão, valorizam os saberes que resistiram com êxito e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos. A esse diálogo entre saberes chamamos ecologias de saberes (Santos, 2006).
P. 13: Esta concepção do Sul sobrepõe-se em parte com o Sul geográfico, o conjunto de países e regiões do mundo que foram submetidos ao colonialismo europeu e que, com excepção da Austrália e da Nova Zelândia, não atingiram níveis de desenvolvimento económico semelhantes ao do Norte global (Europa e América do Norte). A sobreposição não é total porque, por um lado, no interior do Norte geográfico classes e grupos sociais muito vastos (trabalhadores, mulheres, indígenas, afro-descendentes) foram sujeitos à dominação capitalista e colonial e, por outro lado, porque no interior do Sul geográfico houve sempre as ‘pequenas Europas’, pequenas elites locais que beneficiaram da dominação capitalista e colonial e que depois das independências a exerceram e continuam a exercer, por suas próprias mãos, contra as classes e grupos sociais subordinados. A ideia central é, como já referimos, que o colonialismo, para além de todas as dominações por que é conhecido, foi também uma dominação epistemológica, uma relação extremamente desigual de saber-poder que conduziu à supressão de muitas formas de saber próprias dos povos e/ou nações colonizados.
Capítulo 1 Para Além do Pensamento Abissal: Das Linhas Globais a Uma Ecologia de Saberes* Boaventura de Sousa Santos
P. 24- A característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha
P. 23- O pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal.1 Consiste num sistema de distinções visíveis e invisíveis, sendo que as invisíveis fundamentam as visíveis. As distinções invisíveis são estabelecidas através de linhas radicais que dividem a realidade social em dois universos distintos: o universo ‘deste lado da linha’ e o universo ‘do outro lado da linha’. A divisão é tal que ‘o outro lado da linha’ desaparece enquanto realidade, torna‑se inexistente, e é mesmo produzido como inexistente.
P. 25- A sua visibilidade assenta na invisibilidade de formas de conhecimento que não encaixam em nenhuma destas formas de conhecer. Refiro-me aos conhecimentos populares, leigos, plebeus, camponeses, ou indígenas do outro lado da linha. Eles desaparecem como conhecimentos relevantes ou comensuráveis por se encontrarem para além do universo do verdadeiro e do falso
P. 25- Do outro lado da linha, não há conhecimento real; existem crenças, opiniões, magia, idolatria, entendimentos intuitivos ou subjectivos, que, na melhor das hipóteses, podem tornar‑se objectos ou matéria‑prima para a inquirição científica
P. 26- O outro lado da linha compreende uma vasta gama de experiências desperdiçadas, tornadas invisíveis, tal como os seus autores, e sem uma localização territorial fixa.
Inteligência artificial, data centers e colonialismo digital: Impactos socioambientais e geopolíticos a partir do Sul Global
Furtado e Cunha
P. 2- Os produtos da OpenAI, bem como os de suas concorrentes, são sistemas algorítmicos, que entregam respostas (outputs) para comandos textuais específicos (prompts) a partir do processamento de uma enorme base de dados (Evangelista; Furtado, 2024). Mas o que os singulariza não é apenas o seu poder computacional: é a promessa de que as IAs seriam supostamente infalíveis e capazes de solucionar as mais complexas problemáticas, ultrapassando a capacidade do cérebro humano (Crawford, 2021).
Destarte, tecnologias de informação e comunicação (TICs) detidas pelas big techs estadunidenses provocam amplos impactos geopolíticos e socioambientais. Para os países do Sul global onde estas corporações atuam, o que se processa é um aprofundamento da dependência tecnológica e da desigualdade digital – mecanismos estes que atuam como instrumentos de controle político, visto que campanhas políticas, instituições públicas e decisões governamentais de países dependentes são progressivamente mediadas pelas TICs hegemônicas (Ávila Pinto, 2018).
NEM INTELIGENTE, NEM ARTIFICIAL
P. 3- As ferramentas de IA contemporâneas prometem apresentar soluções para problemáticas complexas, incluindo a crise climática. Observar, no entanto, a inteligência artificial desde um ponto de vista paralelo aos discursos hegemônicos nos permite desvelar os vieses tecnopolíticos desta retórica. Por isso, aqui adotamos a perspectiva da pesquisadora australiana Kate Crawford (2021), que defende que a inteligência artificial não é nem artificial, nem inteligente. Em primeiro lugar, a inteligência artificial não é inteligente porque sua operação é baseada na interpretação computacional de padrões em larga escala; ou seja, a IA somente recombina informações previamente existentes para oferecer seus outputs. Logo, não é inteligente porque não é autônoma ou racionalmente capaz de interpretar informações, já que opera identificando padrões de dados.
Em segundo lugar, tais sistemas não são artificiais porque dependem de processos materiais muito específicos.
Para além do trabalho humano envolvido na escrita de algoritmos, o funcionamento e o treinamento de IAs também dependem dos dados armazenados e processados em data centers, gigantescas infraestruturas que demandam alto consumo de energia e água.
P. 4- Para Paz Peña Ochoa (2023), o tecnocapitalismo explora e mercantiliza a criatividade tecnológica, direcionando a produção de aparatos técnicos de acordo com os interesses das empresas que os financiam. Assim, o objetivo não é, evidentemente, responder dilemas sociais através das tecnologias, mas sim produzir aparatos e dispositivos que aprofundam o poder das maiores corporações de tecnologia do mundo, as big techs. Na atual fase do sistema, estamos diante de “uma cultura monotecnológa, que estimula apenas uma forma de imaginar e desenvolver tecnologias, que respondem aos interesses econômicos muito particulares do tecnocapitalismo” (Ochoa, 2023, p. 16)3 .
P.5- Quando se discute IA, existe uma crença predominante de que, quanto maior, melhor; em outras palavras, a ideia é utilizar cada vez mais poder computacional para gerar resultados mais eficientes e mais econômicos. A questão, no entanto, é que o poder de computação não é imaterial e requer energia para isto. Portanto, as retóricas das big techs que insuflam a necessidade do desenvolvimento acelerado da IA – inclusive para solucionar a crise climática – invisibilizam o fato de que tal indústria produz efeitos materiais e ambientais significativos. Até 2040, a indústria tech, hoje comparável à da aviação em termos de emissão de GEE, deve se tornar responsável por 14% do total de emissão de gases de efeito estufa (Crawford, 2021;
P. 18- De acordo com a definição do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil, data centers são infraestruturas que garantem a segurança, a velocidade e a capacidade de atividades online através do armazenamento, processamento e distribuição de dados (Brasil, 2023). Data centers, parte da presença física da Internet, são frequentemente mantidos distantes da atenção pública por suas detentoras, em termos de acesso, localização e modos de funcionamento (Holt e Vonderau, 2015). Estes, no entanto, não são os únicos aspectos invisibilizados. O discurso endossado pelos líderes das big techs, ao hipervisibilizar o progresso que (teoricamente) será alcançado a partir do uso de suas tecnologias e infraestruturas digitais, oculta, por exemplo, as mudanças territoriais, econômicas e ambientais causadas pela instalação de um data center.
O desconhecimento sobre o uso anterior do espaço agora ocupado por data centers normaliza, material e imaterialmente, a noção de que a natureza é um mero receptáculo destinado a abrigar as estruturas e as máquinas da economia digital (Hogan, 2015).
P. 8- Segundo os solucionistas tecnológicos, bastaria utilizarmos um aplicativo ou um serviço computacional para que tudo se torne mais eficiente, para que todo e qualquer problema seja resolvido (Evangelista; Furtado, 2024). Quando recusamos, no entanto, tais discursos, tornamos mais visível uma realidade que aponta justamente para a insustentabilidade das retóricas solucionistas – sobretudo no que se refere à soberania dos países do Sul global.
A AMEAÇA À SOBERANIA
P. 8- O conceito de soberania aqui utilizado diz respeito ao poder político, jurídico e social que expressa a capacidade de um Estado-nação em organizar-se autonomamente e impor, dentro de seu território físico, suas decisões (Dallari, 1998). Depende também, sobretudo desde um ponto de vista tecnológico, da compreensão acerca da intervenção estrangeira; e das formas como potências privadas e estatais controlam e concentram ao seu redor os avanços tecnológicos contemporâneos e os usos decorrentes dos mesmos (Ceballos et al., 2020).
No entanto, para que a soberania seja praticada de fato, um país não pode ter suas vulnerabilidades – políticas, econômicas, tecnológicas, militares, ideológicas, etc. – exploradas em prol dos interesses de outro país (Guimarães, 2020).
P. 9- O colonialismo digital é o exercício de dominação, controle e propriedade de softwares, hardwares e meios de conexão, de modo que, a partir do momento em que são as empresas privadas que estabelecem quais tipos de dispositivos e infraestruturas devem ou não ser adotados em contextos nacionais, tais entidades adquirem vasto poder político, econômico e social (Guerra González et al., 2022).
P. 9- Mas os impactos do colonialismo digital não são somente geopolíticos e tecnológicos: são também ambientais, o que nos permite ressaltar novamente a questão do território. É preciso resistir à perspectiva capitalista que entende os territórios como receptáculo de infraestruturas e reserva de recursos naturais; e que reproduz a violência histórica contra as populações do Sul global, sobretudo as originárias. Assim sendo, a disputa da soberania digital deve envolver também a questão da determinação popular sobre seus próprios territórios. Por isto defendemos conectar a ideia de soberania digital à noção de soberania permanente sobre os recursos naturais (SPRN), conforme Souza (2022)
No livre mercado contemporâneo das tecnologias digitais, quanto mais um governo é dependente de infraestruturas-chave que não tem a capacidade de controlar, então menos livre é a administração pública, dado o caráter de progressiva monopolização do mercado (Ávila Pinto, 2018).Progressivamente poderosas, as big techsestadunidenses adquiriram um domínio significativo já que instalam, controlam, impõem e organizam a infraestrutura digital. Ao incidir sobre a logística, a segurança, a educação, a medicina, o entretenimento, o sistema bancário e financeiro e a energia, entre outros setores, as big techsreorganizam o funcionamento de tais esferas ao redor de suas tecnologias, mercantilizando a vida cotidiana e controlando como se desenvolvem as relações humanas (D’Andréa, 2023)
P. 11- Desta forma, a dependência tecnológica e científica deve ser entendida como uma derivação da dependência cultural e econômica, que impõe quais devem ser as formas de consumo e de produção nos países dominados, sempre de acordo com as normas estabelecidas pelos países dominantes. Logo, é fundamental rechaçar o mito da tecnologia onipotente, neutra, universal e infalível, capaz de solucionar toda e qualquer problemática (Varsavsky, 2013) –algo que se torna ainda mais relevante no contexto dos discursos solucionistas tecnológicos sobre a IA.
É preciso questionar também a questão da matriz energética brasileira como justificativa para tornar o país atrativo para investimentos. Ainda que o Brasil possua uma matriz mais limpa e renovável, isto não quer dizer que não existam problemas hídricos nopaís –muito pelo contrário. Em meados de 2024, o Brasil registrou uma das piores secas de sua história; em Vinhedo, que se encontra na rota da expansão dos data centers, foi necessário adotar um esquema de racionamento de água (Sabino; Vieira, 2024). Isto sem considerar o fato de que ao menos 33 milhões de pessoas no Brasil não têm acesso à água potável (Peduzzi, 2024). Ora, como efetivar uma SPRN verdadeira quando os recursos naturais nacionais são utilizados em prol de corporações estrangeiras e outros Estados-nação agravando, consequentemente, a insegurança hídrica da população doméstica?
P. 12- Existem exemplos em países vizinhos que podem balizar o caminho brasileiro, sobretudo após os acontecimentos da seca de 2024 no país. No Uruguai, que enfrentou uma das piores secas de sua história em 2023, movimentos ambientalistas elevaram suas vozes contra os planos da Google em construir um data centerem Canelones, município próximo a Montevidéu; o projeto prevê que a infraestrutura consumirá ao menos 7,6 milhões de litros de água por dia (Viana, 2023). Outro caso, ocorrido no Chile, também apresenta um precedente positivo: em fevereiro de 2024, um tribunal ambientallocal revogou a permissão para a Google construir um data centernos arredores de Santiago (Data Center Dynamics, 2024a). No Brasil, algo semelhante ocorreu em Limeira, no interior de São Paulo. Parlamentares impediram o andamento de um projeto porque o mesmo não estava de acordo com a legislação brasileira no que se refere à venda de terras rurais para multinacionais (Yadav, 2024, online). No entanto, posteriormente, a câmara municipal votou a favor da alteração do Plano Diretor da cidade de modo a permitir a construção de um data centerda Microsoft, que será instalado em um terreno de cerca de 2 milhões de metros quadrados (Data Center Dynamics, 2024
Além destas problemáticas de ordem política no que se refere ao uso irresponsável de nossos recursos naturais, um aumento na demanda de energia elétrica pode acarretar um grande estresse no fornecimento –como os apagões de 2023 em São Paulo demonstraram.Considerando que as tendências apontam para um aumento na demanda muito maior do que o incremento na oferta, não haverá ferramenta em inteligência artificial possível que fisicamente reduza a imensa disparidade entre o que se consome e o que se produz em termos energéticos. Em suma, o que ocorre na prática é um movimento de empresas localizadas no Norte global orientado a transferir suas infraestruturas poluentes e consumidoras de recursos naturais e energia para outro país. A matriz limpa brasileira, diante do aumento de energia, não será suficiente para conter emissões gerais de GEE.Evidencia-se, assim, que a instalação de data centersno Brasil, que deve ser expandida com a demanda da IA nos moldes propostos presentemente, apresenta sérios riscos simultâneos no âmbito digital e dos recursos naturais do país. Apresenta riscos, portanto, à soberania brasileira.CONCLUSÕESNa interseção conflituosa entre o que infraestruturas prometem –sobretudo em termos de modernidade, desenvolvimento, progresso e liberdade –e o que produzem, encontramos um espaço intermediário a partir do qual analisar as complexidades da realidade e os processos de diversos tipos –sociais, ambientais, institucionais, materiais, não-humanos –(im)possibilitados por infraestruturas (Anand et al., 2018). Foi esta a posição que buscamos ocupar para tensionar as camadas de visibilidade e invisibilidade (Figueiredo, 2022) inscritas no cenário da expansão dos data centersno Brasil diante do aumento da demanda por serviços de inteligência artificial. Nosso principal intuito foi o de tornar mais visíveis os impactos socioambientais e geopolíticos já causados ao Brasil, bem como os impactos que podem –e, segundo as tendências, devem –ser causados nos próximos anos no país.
P. 13- A crítica ao colonialismo digital deve questionar quem controla as tecnologias e quais são seus interesses; que agendas geopolíticas são fomentadas e quais são perturbadas; e o que pode significar ou não a tecnologia digital para o humano (Tello, 2023). Ainda, como o colonialismo digital também produz nocivos efeitos ambientais, o aprofundamento da dependência tecnológica no contexto da IA desarticula não só a soberania digital, mas também a SPRN. Por isto é essencial recuperar a questão do território, mesmo porque, antes dos impactos geopolíticos, os primeiros danos colaterais do colonialismo digital são aqueles sentidos a nível socioambiental.

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